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Blog Pandora abriu sua caixa de Carolina Rieger

Carolina foi a ganhadora do nosso concurso literário, com o texto A Matemática do Assalariado, clique aqui em cima para visitar o blog dela!

Mostrando postagens com marcador Textos. Mostrar todas as postagens
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domingo, 15 de abril de 2012

A matemática do assalariado, por Carolina Rieger Massetti


Nome: Carolina Rieger Massetti
Endereço: São Paulo - SP
Blog: Pandora Abriu a Caixa



Li algo parecido com “a regra é não esquentar a cabeça”, e nesse exato momento sentia a cabeça fervilhando.  
Ia pela calçada fazendo as contas de tudo o que devo, diminuído do meu humilde salário, quando constatei que me sobrariam R$ 40,00 até o final do próximo mês.
Ah, claro! As contas eram sobre o salário que virá daqui a quinze dias, porque o desse mês já foi e hoje, justamente hoje, dele já não me resta mais nada.
Vinha atormentada pela matemática do assalariado quando torci o pé na porra de um buraco na calçada, senti a sola do sapato solta. Pensei: Meu único sapato, preciso comprar um novo!  Mas, como?! Foi o que me perguntei.
A frase infame ressoava na minha cabeça, então contive o palavrão, me recompus, ajeitei a sola no sapato e segui crente.
A regra é não esquentar a cabeça!
Lembrei do cano estourado no banheiro e da facada que o pedreiro, metido a encanador, me enfiara quando fez o orçamento. Novamente as contas, o dinheiro, a matemática do assalariado.
Um calor! Sol de trinta graus no verão da cinza cidade de São Paulo. Bem... O próprio Sol contribuía para esquentar ainda mais minha cabeça.
Uma sede! Bem que eu poderia tomar uma gelada, mas já não tinha um centavo. É, tinha aquele que o banco dispusera na minha conta, afinal, posso estar sempre dura, mas as contas eu sempre pago em dia.
Liguei para uma amiga:
- Então, vamos tomar uma cerveja?
- Ah, já estou perto de casa, hoje não posso.
- Tudo bem!
Tentei outra, ao que ela respondeu:
- Já te ligo confirmando.
Esperei meia hora, quarenta, cinqüenta minutos... Levei um bolo, era a constatação final. Claro, porque eu ainda acho que tenho direito de ter amigos, e além do mais, a regra é não esquentar a cabeça.
Sentia-me pobre, rota, sozinha e não podia deixar de desconfiar que a qualquer momento um cão viria mijar nas minhas pernas.
Decidi beber sozinha. Olhei um bar, outro... Todos olharam para mim, afinal, dentro deles só havia homens.
Putz, além de tudo sou mulher, se eu sentar sozinha em uma mesa de um desses botecos eles vão achar que eu sou puta ou sei lá, que eu to facinha.
Foi quando a frase ressoou novamente na minha cabeça: “A regra é não esquentar a cabeça”.
Gritei um foda-se em alto e bom som! Foda-se! Quem concebeu essa frase deve ter feito sob efeito de uma boa champagne, com a conta gorda e segurança social. Foda-se!
Então entrei sozinha no boteco mais sujo que tinha por ali, pedi uma cerveja bem gelada, banquei a sapatão e paguei a conta com o dinheiro do banco.


Viva as Estações, por Linda Lacerda



Nome: Linda Lacerda
Endereço: Vila Velha - ES
Blog: Retalhos de Mim



Desejo que você viva sua vida como a terra vive as suas estações. Que você tenha a sabedoria dos pássaros que voam em busca de outras paragens, até que se passem os tempos ruins. Que no inverno dos seus dias, onde até alguns corações se tornam frios, você adormeça na esperança de receber a primavera, aproveite o seu esplendor e no calor do seu peito os aqueça .Que como as flores, exale perfume e inebrie o mundo. Que você saiba transformar os seus sonhos em realidade, como as sementes se transformam em frutos e que esses mesmos frutos produzam bálsamo que alivie a dor e que sejam alimento para os que têm fome do bem. Que o orvalho da esperança regue suas folhas que se chamam pelo nome de certeza. Que suas raízes sejam firmadas na rocha, para que resistam às tempestades que por vezes assolam a nossa vida. Que você saiba colher cada florzinha, sejam elas de estufa ou do campo; Que retire com cuidado espinhos que porventura tenham e que se não for possível, aceite-as como são e cultive cada uma delas no aconchego do seu coração. .. Que dos seus olhos emanem raios de esperança para mantê-las vivas e que você saiba enfeitar a sua vida com essas mesmas flores. Que aos olhos dos que lhe cercam, você brilhe como o sol do meio- dia e que o seu interior irradie raios de alegria. Que no campo fértil dos seus sentimentos mansos regatos corram e refrigerem a alma dos que têm sede de paz e que eles possam repousar sob a ternura do seu olhar. Que quando as mãos do destino lhe podarem, você se refaça e que os seus brotos destilem a seiva do otimismo e que como chuva temporã, regue corações secos que adormeceram no desamor. Que no frio, o calor do seu abraço aqueça outros braços e que a alegria faça morada em seu seio, para que a nostalgia não invada sua alma nem o seu olhar... Que na parte que lhe coube plantar uma vinha, que ela seja de justiça, que nela você semeie somente o bem e que o terreno do seu coração seja fértil para germinar o amor... Que suas mãos se estendam aos que o cansaço fez sentar à beira do caminho. Que as estações da sua vida sejam distintas, para que outros se apercebam dos seus frutos, do seu florescer e do seu calor, para que vejam o desabrochar do amor que provem de você. . Desejo que a fé seja o seu firme fundamento na construção do impossível e que nela você faça degraus que levem você alcançar os seus sonhos e anelos. Que se encontrar pedras no caminho, tenha a humildade de recolhê-las, para que os pés dos que lhe seguem não se firam. E que se grandes ondas lhe cercarem você se eleve e caminhe sobre as águas e que o espelho dessas mesmas águas reflita tudo o que de bom você propiciou aos que lhe acompanham enquanto está aqui. Que no verão o sol seja presença constante em seu viver , que no inverno os corações se sintam aquecidos pelas suas mãos calorosas e que sempre carregue nos ombros o manto que aquece toda amizade sincera. Que você descubra que os bons corações às vezes hibernam, para voltarem melhores na primavera. Que a sua vida seja um buquê de sempre-viva e amor- perfeito ofertado a todos quantos assistem o despontar da luz que habita em você. Desejo que seja arco íris depois da chuva e bonança depois da tempestade. Que no verão você seja a gota de orvalho que cintila nos olhos dos que perderam a esperança. Que você seja brisa mansa que acaricia corações que sofrem e vento que seca as lágrimas dos que choram... Que no inverno das suas vidas, as pessoas alcem voos a ti, como aves de arribação em busca de outros verões e que os raios do seu sol interior lhes aqueçam. Que você seja sombra que dá refúgio aos cansados e que ela se estenda a todos os viageiros que lhe procuram como abrigo das intempéries da vida e que no seu coração o amor construa um ninho. Que no outono da sua existência, quando se tingirem de prata os seus cabelos e seus olhos já não possuírem o mesmo brilho e quando lhe for levada a maciez da sua tez e o verdor da sua juventude, você ainda olhe o mundo com alegria. Que os bons ventos alísios tragam nas asas sopros que afastem da sua cabeça a nuvem do desengano que um dia quis pairar sobre ela. Que nessa estação, você ainda tenha forças para dar largas passadas em busca da paz e que ao alcançá-la, empunhe a sua bandeira e grite ao infinito que a busca acabou e a dissemine ao mundo no tempo que lhe resta. Que nessa jornada ela seja sua companheira de viagem e que nessa estrada a tristeza lhe perca de vista .Que depois da primeira curva a alegria esteja a lhe esperar e que caminhe de mãos dadas com você. E quando o tempo que nos traz e nos leva a todos lhe fizer alçar voo rumo ao fim, que o anjos lhe abram passagem na passarela infinita do éter e que você possa calar fundo ao mundo e a todos que nele lhe foram caros e que você receba como prêmio o galardão reservado àqueles que tornaram melhores os dias dos que compartilharam este intervalo que lhe foi concedido e à essa missão que lhe foi confiada, que ora chamamos de vida!

sábado, 7 de abril de 2012

Chuva de Verão, por Edweine Loureiro


Nome: Edweine Loureiro
Endereço: Saitama - Japão
Blog: Edweine Loureiro




Gotas respingam no vidro da janela e de meus olhos, a menina daquela casa não mais existe, eu não existo, o café na chaleira, os chinelos esquecidos, será que na islândia faz sol, uma noite ele foi comprar cigarros e me deixou, foi um verão frio aquele, tenho que acertar o relógio, olha que coisa mais linda mais cheia de graça, adoro tom, acho que vai chover o dia todo, e eu aqui, acorrentada, lendo um Borges que não entendo, tão labiríntico, vai ver também sou labiríntica, sem sol nem praia, só essa chuva, labiríntica…

Folhas Caídas, por Amanda D'Andrea Löwenhaupt


Nome: Amanda D'Andrea Löwenhaupt
Endereço: Pelotas - RS
Blog: Vivendo entre livros




Conforme os dias quentes de verão davam lugar ao agradável frio do outono, pensei que me tornaria capaz de abandonar o passado. Como estava enganada... Certos eventos se tornam divisores de águas em nossas vidas, separando o que éramos antes daquilo que nos tornamos ainda que contra nossa vontade.
Há muito tempo aprendi como esconder meus sentimentos, minha face tornou-se uma máscara impassível e ninguém poderia ver o que havia além dela. Ninguém além dele, é claro. Pode parecer um clichê: a psiquiatra fria e profissional que se apaixona por um de seus pacientes e se prova extremamente sentimental. Mas não foi assim que aconteceu. Nem mesmo agora posso dizer que sou especialmente sentimental, e tenho certeza de que ninguém foi capaz de perceber mudanças em meu comportamento porque elas não ocorreram. Não me tornei outra pessoa, nem mesmo revelei que já era por trás da máscara. Continuei tão afastada dos outros como sempre fui. Talvez por isso ninguém foi capaz de compreender como sua morte me afetou. A diferença estava no que era visto, não no que era mostrado.
Ele era capaz de enxergar além de todas as farsas, além das mentiras inocentes e das não tão inocentes que contava diariamente. Sob seu olhar sentia-me nua, incapaz de esconder até mesmo meus pensamentos mais obscuros. Era ele quem me avaliava, não o contrário.
Por vezes me peguei pensando em como a vida deveria ser devastadora para ele, que não era protegido pelas ilusões que permitem a vida diária. Por ser capaz de observar aquilo que outros preferiam ignorar, foi levado até a beira do abismo. E foi lá que o encontrei.
Pensando em retrospecto, qualquer relacionamento entre nós estava fadado ao fracasso. Eu era sua médica, e respeitava minha profissão demais para ignorar esse fato. Era uma relação platônica, baseada em nossas longas conversas sobre filosofia e sociologia, e em especial sobre o que ele havia feito. Mesmo esse relacionamento tinha todos os motivos para ser encerrado. Atrelar minha existência a alguém que não suportava mais o peso da vida foi uma das decisões mais tolas que já fiz.
Não acredito que tenha de fato atentado contra a própria vida, ao menos não naquele primeiro momento. Creio que só queria ser deixado em paz e pensou que uma ala psiquiátrica era um lugar tão bom quanto qualquer outro para organizar seus pensamentos. Talvez precise acreditar nisso, ou pensarei que tudo o que vivemos foi apenas sua tentativa de me usar para sair daquele local. Muitas semanas depois de nos conhecermos, contou-me que ficou desesperado por não saber como contar para o irmão que seu noivo era um mentiroso que só estava interessado no direito e na influência da família. Quando seu irmão não acreditou no que tinha a dizer e prosseguiu com o casamento apenas para passar por um doloroso divórcio alguns meses depois, não suportou a culpa e cortou um dos pulsos. Meses se passaram antes que me mostrasse a cicatriz e me contasse que sabia que não iria morrer. Era um corte horizontal, sem marcas de hesitação, não muito profundo. E foi ele quem chamou a ambulância.
É claro que só estou tentando racionalizar um comportamento que não teve nada de racional, mas é o único modo que tenho de compreender o que o levou a me abandonar. Por vezes me pergunto até que ponto ele entendia o que existia entre nós. Sei que viu sentimentos que tentei negar muito antes de me tornar capaz de os admitir, mas não sei o que pensava das relações humanas. Sendo capaz de ver além das mentiras e das atuações, não tinha muita fé em relacionamentos.
Era um homem bom, mas nem ao menos sabia disso. Fazia o bem sem esperar nem mesmo um sentimento de gratificação. Os outros o viam como um estranho, até mesmo um louco. E até certo ponto o era. Talvez todas as mentes tão brilhantes funcionem de um modo que chamamos de loucura. Era inteligente demais para seu próprio bem, capaz de fazer coisas que outros consideravam impossível.
Meus próprios pensamentos me parecem desordenados. O que me faz pensar que ele era bom? Seria tão tola ao ponto de acreditar que desvendar verdades que ficariam melhor permanecendo encobertas era um ato de bondade? De fato preveniu muitos crimes e salvou diversas pessoas da ruína em que transformariam suas próprias vidas, mas o fez porque não poderia evitar. Contar o que via era seu modo de manter um fiapo de sanidade, e quando se tornou incapaz de o fazer, tornou-se também incapaz de seguir vivendo.
Lembro-me perfeitamente do que aconteceu. Dois dias haviam se passado desde sua alta, o que me fez pensar que o hospital tivesse cometido um erro, que eu tivesse cometido um erro. Quando o vi pela última vez antes de ser liberado, não imaginava o que iria fazer, talvez porque diferente dele não era capaz de ver o que se ocultava da escuridão das almas alheias.
Só vi o que aconteceu porque como todas as pessoas ele tinha um pouco de maldade. Ele me ligou para garantir que estaria lá, para garantir que veria quando ele pulasse. Talvez quisesse explicar o que iria fazer, mas não soubesse como me dizer o que precisava ouvir. Suas últimas palavras foram: "Sinto muito."
Pela janela, posso ver as folhas caindo. Já estive no interior desses quartos, que agora vejo como celas, muitas vezes antes, mas é fascinante como nossa percepção pode mudar por causa de simples detalhes. A única diferença entre antes e agora é que já não posso mais sair.
Por falta de termo melhor, chamaram minha desilusão de F32.9. Episódio depressivo não classificado. Acho que é mais fácil para eles dar um código e um nome clínico para o que tenho. Assim não precisam admitir que meu problema é que já não há nada por trás da máscara, que minha alma se partiu em um milhão de pedaços e que não pode ser reparada, que meu coração se espatifou naquela rua e que o sangue que escorria para o esgoto era também o meu.
Pensei que talvez o outono fosse me devolver a frieza que ele me fez perder, mas estava enganada. Talvez o inverno seja capaz de congelar os fragmentos de minha alma, assim os juntarei para que formem algo parecido com meu antigo eu exterior, ainda que meu eu interior permaneça além de qualquer salvação.
Enquanto isso ficarei aqui, vendo as folhas caindo.
Vendo as folhas caindo como ele caiu.
Caiu da graça para se provar mortal.
Mortal como todas as pessoas ordinárias que não o compreendiam e pensavam que ele não era como elas.
Caiu e se tornou uma casca vazia atirada na rua.
Caiu e me transformou em uma casca vazia presa em uma cela.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Árvore do futuro, por Diva de Montalbán


Nome: Diva de Montalbán
Blog: Pensamentos de Diva de Montalbán
Endereço: Santos - SP



Já é nova estação. Lá no meu quintal,vou cavar o solo e depositar a semente de uma árvore.
Plantar no outono, a primavera, e vê-la forte e linda no verão que virá.
A enxada foi posta de lado. De joelhos, cobrirei os sonhos com a terra fria e úmida pelas chuvas do inverno, usando apenas  as mãos de castos amores.
Árvore de um futuro próximo. Nela pousará a abelha e o sabiá. O beija-flor sorrirá quando por ela passar, e ao seu redor a grama macia se estenderá.
Da minha janela poderei cuidar dela...perceber a natureza compondo sua harmonia.
Árvore da vida...
E sua sombra será o abrigo para quem busca leveza de um sentimento, alimentado pela fotossíntese dos banhos de sol e de lua...
E o beija-flor?
Já falei do beija-flor... ele sorrirá quando  por ela passar. Será verão...

Minhocas na cabeça, por João Paulo Hergesel


Nome: João Paulo Hergesel
Blog: Joaninha Platinada
Endereço: Alumínio - SP



A perspicácia do Verão foi calorosa. Na distribuição das estações, soube escolher o melhor período, obteve a sorte de trabalhar com a companhia do Sol e ganhou a oportunidade de receber o ano com um sorriso radiante de boas-vindas, bem como a de lhe dizer adeus com um ardente beijo de despedida. Pode, inclusive, se gabar por acolher os três maiores feriados, Natal, Ano Novo e Carnaval. Além de bancar o bonzinho com os jovens por ter abraçado, também, as férias escolares.
Às vezes, porém, o que deveria ser descanso acaba se resultando em tédio. Na chácara do avô, nada para fazer, ninguém com quem falar — nem as três filhas da empregada, de idades consecutivas aos doze anos dele, arriscavam conversa. Para se livrar do contrastante frio do desprezo, distanciou-se da casa e adentrou uma trilha abandonada, onde seguiu até encontrar um riacho.
A grama tão alta parecia estar de pé. Ele deitou o corpo sobre ela, as mãos se fizeram travesseiro, os olhos admiravam as nuvens que bailavam no cenário azul do céu. Coisa mais chata, mas servia para passar o tempo e se esquecer do desejo alucinado de chupar sorvete. A bermuda de poliéster e a camiseta sem mangas deixavam à mostra as pernas e os braços, que já carregavam os primeiros fios da puberdade. Passou quatro horas ali.
Percebeu ter encontrado algo mais que um lugar bonito: descobriu o aconchego. Sentia-se relaxado, a brisa morna fazendo-lhe cair no sono. As pálpebras pesavam, mas antes que elas se fechassem, a bexiga tornou-se um incômodo. A sensação de preguiça era muito boa, por isso cruzou as pernas e tentou enganar o organismo. Há coisas, no entanto, as quais não se adianta nem tentar; impedir a vontade da natureza é uma delas.
O banheiro mais próximo ficava longe, e o barulho da correnteza não contribuía muito para o autocontrole. Teve de tomar uma atitude tipicamente masculina: infiltrando-se entre arbustos e correndo para trás de uma árvore, fez do musgo mictório. Por fim, olhou para baixo — ficou cara a cara com uma minhoca.
Como ela era feia, pobrezinha... e aparentemente estava infeliz; pelo menos não sorria, se é que tinha algum dente para isso. O sol a deixava estorricada e sem forças, um caule de margarida exposto ao calor, completamente murcho. O garoto quis fazer alguma coisa com ela, embora não tivesse a mínima ideia do que pudesse ser feito. A minhoca era indiferente ao olhar do rapazinho.
O som de passos fez o garoto virar-se abruptamente; a minhoca apenas transpareceu um leve movimento. As filhas da empregada apareceram para tomar um banho de riacho. O verde circundava o lugar, e o garoto, espiando entre os vegetais, sentiu seu mundo colorir. Uma morena, uma loura e uma ruiva: sorvete de napolitano em forma humana.
Os olhos brilhantes baixaram e viram que a minhoca havia encontrado sombra e se reidratava aos poucos. Ele baixou a mão direita e a aproximou dela, numa tentativa de brincar — uma brincadeira da qual não sabia certamente quem sairia vencedor. Tomou entre os dedos algo mole e esquisito de segurar.
Voltou a observar entre as folhagens e se deparou com uma imagem nunca vista pessoalmente por ele antes: as camisetas não poderiam ser molhadas, por isso as garotas as tiravam. O garoto colocava um sorriso malandro na face. A minhoca se contorceu, espreguiçando-se, como se a sombra, a temperatura ou algum outro fator do momento fosse responsável por que ela se esticasse.
À beira do riacho, a loura e a morena usavam os delicados dedos para desfazer o nó dos cordões de seus shorts, enquanto a ruiva descia calmamente a saia. O garoto continuava a espreita e se divertia com a cena. Começou a balançar os dedos, uma massagem malfeita na minhoca. Ela, mesmo assim, demonstrava gostar e o recompensava fazendo pequenas cócegas.
Não sabia se ria ou se se segurava, se olhava para a isca de peixe ou para as três sereias. Sem perceber, a situação dos dois novos amigos se inverteu: a minhoca estava rígida, procurando algo para olhar, e ele se contorcia, sentindo uma estranha alegria interior nunca sentida antes.
Reposicionou os olhos a tempo de assistir ao desfecho da cena. As moças analisaram o ambiente e, sem notar a presença do neto do patrão, se desfizeram das roupas de baixo e pularam na água cristalina, refrescando seus corpos.
Uma inesperada e repentina chuva de fim de tarde escorreu de uma nuvem passageira. As garotas saíram espontaneamente do riacho e, vestindo-se rapidamente, voltaram para casa. O garoto permaneceu estático — as gotas do suor imprevisto que vazava da testa se misturaram com as gotas do suor vindo do céu. A minhoca, agora molhada, se encolheu na palma da mão. A mão estava pegajosa — celoma de anelídeo, talvez — e mostrava o poder que ela teria dali em diante.
Perspicaz foi o Verão. Merecedor de uma menção honrosa por representar uma época que é tida, por muitos, como a da descoberta da adolescência.


Direitos Reservados à João Paulo Hergesel

domingo, 1 de abril de 2012

Guerra de Lágrimas, por Thayná A. Caetano




Nome: Thayná A. Caetano
Blog: Kawai Candy
Endereço: Ribeirão Pires - SP



Em um dia qualquer de verão na Alemanha, em 1915, a chuva gélida caía rapidamente lá fora, enquanto eu a observava de janela de casa com meus pensamentos soltos. Hmm... Chuva...
- Ei mamãe, quando o papai vai chegar?
Ela sempre ficava pálida quando eu perguntava isso. Ficava quieta por um tempo, e logo depois respondia "Daqui a pouco, meu bem. Daqui a pouco" Mas daqui a pouco quando? E se começar a trovejar? Quem irá me proteger dessa chuva assustadora, hein? Refletia sobre isso todos os dias enquanto ouvia os tumultos e tiros nas ruas. Mamãe não me deixava mais brincar no parque, ficávamos em casa o dia todo. "Está tudo bem, temos estoque de comida o suficiente para vivermos, filha". Mas porque ficar trancada o dia todo em casa enquanto o dia era tão belo na cidade? Ela não respondia.

"Se não posso ir ao parque, com quem vou brincar?" eu perguntava isso com muita frequencia, e ela apenas colocava a mão em sua barriga enorme e respondia com um sorriso "Com seu irmãozinho. Assim como o papai, ele logo logo vai chegar". Isso é muito tedioso, mamãe! Os dois estão demorando muito! Fico pensando toda hora em que um dia meu irmão vai chegar e, junto com papai, vamos brincar alegremente, como nos velhos tempos. Isso me animava , mas as coisas estavam muito estranhas naquela época. Por qual motivo papai teria saído ás pressas de casa e ficado longe de nós por tanto tempo sem dar noticias? Poxa, já se passou muito tempo! Quando isso vai acabar? Eu não estou entendendo mais nada!

As vezes, quando ficava com insonia, ia para a cozinha pegar um pouquinho de leite para ver se isso me tranquilizaria e, quando passava em frente ao quarto de mamãe, ouvia gemidos e palavras de desespero vindas dela, que sempre chorava e repetia sem parar "Volte para casa, por favor. Eu imploro...". Gostaria de ajudá-la, mas tinha medo de perguntar o que a aborrecia...

Certo dia, uma homem meio velho de bigode que aparentava ter uns 50 anos, e que usava as mesmas roupas que o papai costumava usar, veio em casa para dar um recado para mamãe. Fiquei escondida no quarto observando por uma brecha na porta, enquanto pensava o por que dele estar usando as mesmas roupas do papai. Eles conversaram por uns três minutos. Não entendi muito bem o que diziam, mas mamãe arregalou os olhos ao ouvir as palavras "morto em combate". Logo o homem vai embora e ela corre para o quarto gritando e em pratos. Tentai acalma-la e saber o que estava acontecendo, mas ela não quis me contar. Minha mente estava confusa. Naquela época, mal sabia eu que estavamos em plena Primeira Guerra Mundial e que papai nunca mais iria voltar para casa.


sábado, 31 de março de 2012

Peregrinações, por Samantha de Souza


Nome: Samantha de Souza
Blog: Um café pra minha gastrite, por favor.
Endereço: Paragominas - PA





Ela andava como quem anda numa corda bamba, tentando equilibrar seus sonhos para que não caíssem no meio do caminho. Os olhos perdidos no horizonte mediam a distância do destino: é hora de mudar os planos e as direções. O inverno ficará para trás, pois que venha o verão, o sol há de brilhar mais forte para além da fronteira.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Alice: Por André Luis Soares


Nome: André Luis Soares
Blog: Gritos Verticais
Endereço: Guarapari - ES



(André L. Soares)

.

Alice, embebida de pureza,
há poucas horas, chegara ao planeta,
ainda estava imune à maldade,
quando as notícias velozes
rasgaram-lhe as têmporas.

Lágrimas verdes vertendo das retinas,
pontas de dor aguda a lhe fisgar o peito,
grito de clave de sol, preso à garganta,
ela então, vê a santa desnuda
sob a luz fria do cotidiano,...
momento em que o belo pintou-se de breu
(sabor amargo de inocência trincada).

Cansada, recolhe-se ao quarto,
a proteger-se dos cristais e plasmas.
Após sangrar lembranças, cerra pálpebras,
chora e soluça outra vez, sozinha.
Por fim, Alice adormeceu!
Em seus sonhos ainda existem flores,
a água e a verdade parecem cristalinas
e até o coração do homem é bom.

Acanhado, procurei algo
que a fizesse sentir-se melhor
quando acordasse;
tentei criar um ‘origami’, mas já era tarde...
eu só tinha em mãos, a realidade. 




terça-feira, 20 de março de 2012

O último adeus de Regininha: Por Eduardo Moura


Nome: Eduardo Ferreira Moura
Blog: Life on Marx
Endereço: Rio de Janeiro



O Último Adeus de Regininha

Nunca transei drogas. A Mariazinha dizia que é porque eu já sou doido careta, imagina drogado. A verdade é que nunca bateu. Fumar só me dá dor de cabeça, nenhuma viagenzinha. Por isso não fumo. Nada contra quem fuma, cheira, ingere, passa no cabelo, enfia no cu... Cada um na sua, cada um no seu.
Acontece que a Regininha fuma. Tudo bem, nada contra, como eu disse. É até mais saudável do que cheirar ou enfiar no cu. Sendo que ela usa muito pouco, uma vez por semana, se tanto. É nosso brinquedinho sexual. Ela fuma um e depois viaja na nossa transa. Mas nem sempre, porque senão eu me sinto um lixo. Sinto que ela não me curte tanto quanto curte a droga. Então é necessário transar careta às vezes, para manter o moral.
Quando ela acende os dela, sempre me pergunta:
- Não quer?
Não quero. Não adianta, continuo (continuaria) sem achar graça do que não tem graça. Mas fico meio feliz com isso. Só que tem uma coisa que eu não disse: eu amo a Regininha. Tanto que nem a chamo de Regininha. Só chamo a Regininha de Regina, porque é assim que eu chamaria a mãe dos meus filhos. Mesmo que ela se chamasse Márcia, ou Andréia, só a chamaria de Regina, porque é assim que eu chamaria a mãe dos meus filhos.
Ela não é daqui, porque gente legal nunca é daqui. Ela é de algum lugar escroto, mas que a gente acha legal porque ela é de lá. Só que ela está aqui, o que é muito bom.
- Mas eu tenho que ir lá pegar umas coisas.
Ela disse. Fiquei tenso, então. Eu amo a Regininha, acho que a Regininha me ama. Não curto ela viajando no verão para lugares que não são aqui. Mas não havia jeito, segundo ela.
- Eu volto. Eu não vim?
Grande merda. A gente foi vivendo assim, até que chegou o dia de ir embora. Preparei uma surpresa. Surpresa ilícita, porque surpresa boa é surpresa ilícita. Enrolei um baseado no capricho, generoso na quantidade e na qualidade da planta. Sei enrolar baseado porque namorei a Jussara, que fumava que nem um jamaicano às quatro e vinte. Ela me ensinou a enrolar quando a maquininha quebrou. (Jussara tinha uma porra de uma maquininha de enrolar baseado, dá para acreditar?).
Então Regininha chegou. Veio para uma transa de despedida, por mais que dissesse que não era uma despedida, era apenas um final de semana afastado e tal... Mostrei a ela o baseado imperial que eu havia preparado e os olhinhos dela brilharam:
- Hoje você vai fumar comigo?
- Não. Hoje é careta. Você também não vai fumar, para se lembrar de cada detalhe. Enrolei esse pra fumar contigo, mas só na volta.
Coloquei o baseadão em uma caixinha e a fechei. Regininha ficou louquinha. Nem havia ido e já estava ansiosa para voltar e fumar o baseado-rei comigo. Então a gente transou uma transa muito louca, louquinha como a Regininha. Melhor, inclusive, do que as transas que a gente transava drogado. Porque eu não fumo, mas tenho que admitir que fumada a Regininha transa melhor.
A gente começou na cama e rolou para o chão. E rolou para debaixo da cama. E ficamos naquele frenético sobe e desce, dando com as costas no estrado e fazendo um barulho da porra, como se estivéssemos fazendo tudo pela última vez, como se no dia seguinte ela estivesse se mudando para Auschwitz. Suando como porcos apaixonados e bufando como bezerros famintos. Mordendo que nem jacaré com fome e beijando que nem tamanduá na formiga. Altos bichos. Até a extinção. Ficamos caídos no carpete, por cima de uma poça de suor e sabe-se lá mais o que. O melhor tempero é a fome, o melhor lubrificante é o amor.
Regininha levantou, tentou andar e caiu no chão. Perninhas finas e bambas. Dormimos como estávamos, no carpete. Dissemos nosso último adeus em sonho.
Não sei quantas horas depois, acordamos para uma ducha. Roupas.
- Tchau.
Ela disse na porta. Insisti:
- Você volta?
Eu amo a Regininha.
- Claro que volto, seu bobo.
- Na volta, já sabe.
Juntei o polegar e aquele outro dedo que a gente usa bastante e os levei a boca, fazendo mímica de fumar. Ela riu, beijou meus dedos e minha boca. Fechei a porta atrás de sua silhueta perfeita. Espiei pelo olho mágico, como de costume. Ela acenava com uma mão e mandava infinitos beijos com a outra, até entrar no elevador.
Então mofamos. Eu no sofá, ele na caixinha. Maconha e amor, se não guardar na geladeira, dá mofo mesmo. 




A desonra: Por Daiane Guimaraes


Nome: Daiane Guimaraes
Blog: O Brasil do Exterior
Endereço: Buenos Aires, Argentina


A desonra

       Corrupções de todas as naturezas abastece o país, com uma aparência multifacetada e camuflada por entre comportamentos de políticos que apresentam grande fluência no quesito fazer promessas. Ótimos atuantes em seu universo de realização quanto aos interesses públicos como se a concretização de tudo o que fora prometido durante campanhas eleitorais não fugissem da realidade e das verdadeiras aspirações da parte desses fanfarrões.

Os títulos sugeridos e nomes bem literais contemplam os fatos como: ‘malas de dinheiro, fortunas em cuecas, notinhas vivas até em meias e uma onda com cara de tsunami de ganâncias e ambições que desonram cada vez mais as equipes que precisavam governar – com respeito ao verbo -  este país.
Comentar sobre o comportamento desses homens públicos que são colocados no poder, quiçá por falta de opção do eleitor, introduz bem o sistema ‘democrático’, que  embora recente,  já mostra tantos desafios que a sociedade tem ainda a superar. 
Quando nos deslocamos de nossas residências até às urnas de votações, o fazemos com a intenção de construir um Brasil melhor na educação, saúde e segurança elaborando desta forma o bem estar prometido por qualquer eloqüente. O que o povo possui como reação da outra parte, é um infortúnio torturador que homens detentores da confiança pública equilibra com escândalos inexplicáveis. 
Muitos dizem que essa tormenta é apenas uma tempestade de verão, mas seriam esses delitos e crimes políticos mais antigos do que o próprio político a ponto de ser tão intrínseco ao poder, enaltecendo a qualidade da mídia que usufrui da liberdade para transparecer e até, eu diria antagonizar o dia-a-dia de protagonistas que constantemente entram em cena? Ou, simplesmente, eles entendem somente assim, para usar “a coisa primitiva” como um discurso para maquilar o “eu não sabia”.  


terça-feira, 13 de março de 2012

Conhaque: Por Maria Teresa h. Fornaciari


Nome: Maria Teresa h. Fornaciari
Blog: Ouvindo Meus Botões
Endereço: São Paulo - SP



Conhaque

Tudo por causa do conhaque, dona Vera... Eu aqui trabalhando dando duro varrendo escovando lavando e ele lá largado no sofá que até rasgou e ficou com o recheio aparecendo, um nojo. Os meninos não aguentam os gritos, ele só sabe falar berrando mais que os carneiros do pasto que muitas vezes fogem pela cerca que ele não conserta, vai ver nem os bichos são surdos e ficam horrorizados com o jeito como ele fala comigo e somem pelo mundo e depois ele tem que procurar eles e não acha e o patrão fica uma onça e desconta cada um dos carneiros do salário dele que não dá pra nada. Não gosto mais dele não, dona Vera, a senhora acha que eu posso gostar de um traste que não me enxerga nem quando eu ponho aquele perfume caro e vencido que a senhora me deu? Eu não tenho mais marido, dona Vera, tudo por causa do conhaque, o mesmo conhaque que fez mãe ficar desesperada e me dar de papel passado quando eu tinha sete anos, só sete anos, dona Vera. Nunca mais vi minha irmãzinha gêmea, ela também foi embora um pouco antes com uma moça de cabelo vermelho e de olhão azul para tomar conta de um bebê chorão de olho azul também, foram de carro naquele dia chuvoso de verão. Se eu perdoei mãe? Acho que sim porque o conhaque bota a gente desnorteada mas não dá pra dizer que gosto dela e de pai, nunca me procuraram e nem conhecem os meninos meus, aliás eles já estão grandes e falam em sair de casa para trabalhar na cidade e eu vou ficar sem eles, dona Vera,  vou ficar sem nada. Tá certo, tenho meu emprego aqui, mas não gosto nem do dinheiro que levo pra casa e que compra mais conhaque, dona Vera.
Estou parando até de rezar, dona Vera, parece que Deus está cheio de compromissos e não tem tempo pra gente sem mãe sem pai sem irmã sem marido sem filho sem coisa nenhuma. Vou contar pra senhora um segredo daqueles que não conto pra ninguém, dona Vera: sabe do que gosto? De sair do serviço no fim do dia mesmo que seja exausta porque aqui o trabalho é pra duas, a senhora me desculpe de estar falando isso, mas eu já disse que era segredo bem guardado, então eu saio daqui e vou andando pra casa a pé sem pressa nenhuma, mas olhando o céu cheio de nuvens e pensando que num dos muitos esconderijos dele vai ter uma garrafa de conhaque me esperando pra um gole. Eu sei que não devo, D. Vera, mas só o conhaque pra me fazer companhia e fingir que não existe em casa aquela cara inchada que não me vê, mesmo com este vestidinho de verão cheio de flor e de decote que a senhora não quis mais, D. Vera!


Texto de Francisco Ferreira, Divulgado aqui em razão do concurso. Visite o blog de Maria Teresa


Chacina: Por Francisco Ferreira





Nome: Francisco Ferreira
Blog: Versos Insones
Endereço: Betim - MG




Chacina

Dois anos no exterior.
Nenhuma carta, e-mail, telefonema... Sequer uma mensagem!
Retornou.
Há 10 metros de casa o velho telefone público. Discou torcendo para que a mãe atendesse.
_ Mamãe?
_ Vitória? Meu Deus, é você? Estava morta de preocupação com você, já a acreditava morta. Mas se eu disser que sonhei com você hoje, que tinha voltado, você crê? Como você está? Tudo bem? Quando você volta?
_ Sim mamãe, ta tudo bem! E o pai e meus irmãos?
A mãe se sobressaltou. “Vitória, perguntado pelo pai e os meninos. Será que está acontecendo alguma coisa?”
_Ah, minha filha o de sempre. Chegou bêbado e já foi dormir. Os meninos também! Mas se quiser falar com eles eu os acordo.
_ Não precisa, mamãe. Boa noite!
_ Oh, filha. Depois de dois anos... Não desliga não... – mas já havia desligado.

Márcia ouviu baterem na porta. “Quem poderá ser a esta hora, meu Deus? Só podem ser os vizinhos pedindo alguma coisa emprestada. Nunca devolvem nada. Gente folgada!” – Abriu.
_Vitória? Mas eu falei com você há um minuto???
A moça apontou-lhe com a cabeça o telefone público, do outro lado da rua e estendeu-lhe a mão. A mãe não se conteve e aninhou a filha nos braços, soluçando. Coisa estranha aquele abraço, já não se lembrava do contato com a mãe. Esquecera-se das suas formas, do seu cheiro. Aliás, jamais o conhecera. Gente era algo muito estranho e imprevisível. Retribuiu, sem emoção, ao abraço.  
_ Venha Vitória. Vou acordar o seu pai e os meninos. Eles hão de querer vê-la!
_ Não precisa, mamãe. Amanhã os vejo. Minhas coisas ainda estão no meu quarto? To com sono. Vou me lavar e dormir.
_ Mas o que é isso, menina? Vou esquentar a janta, você deve estar com fome.
“A mesma conversa fiada de sempre. Com ela ou com os irmãos era sempre a mesma coisa. Para a Velha Sádica bastava que os alimentasse com a sua comida requentada e sem tempero, feita sem nenhum amor e estava tudo bem! Desde que cozinhasse a comida chorada que o Velho Ordinário colocava dentro de toca e estava tudo bem. Desde que houvesse pão para os seus, o circo é que se danasse. E que se danassem todos aqueles que desejassem dela algo mais. Isso já não bastava?
_ Estou sem fome, Não precisa. Obrigada, mamãe...
_ Está bem. Você deve mesmo estar cansada. Ouvi dizer que no exterior vocês trabalham feito burro. Igual a escravos, que não tem tempo para nada. Você ta parecendo muito mais mirrada do que quando saiu daqui, mas deve ser a vida que ta levando, né mesmo? Mas agora que você ta aqui, vai recuperar as carnes e as cores rapidinho. Já já e ta corada de novo.
“Ah! A Velha Sádica destilando seu veneno. Pobre coitada. Quanto está enganada, mas se lhe faz bem, deixarei que pense deste jeito.”
_ Pois é, mamãe, vá dormir amanhã agente se fala mais. Vai descansar... – um sorriso desdenhoso bailou no rosto de Vitória. “Vai descansar!”
Deitou-se sabendo que não iria dormir. Tão surreal aquela situação. Sentia que nunca fez parte daquilo, embora estivesse no seu quarto. O mesmo velho quarto, rodeada de suas velhas coisas, como em mais de vinte anos de sua vida. O guarda-roupa de portas amarradas e caindo para um lado; as mesmas bonecas mutiladas e de segunda-mão; a mesma cama barulhenta e fedendo a naftalina. Tudo igual! O que então não condizia, estava fora do lugar?  O que, naquele contexto, diferia e não se encaixava? Desde os cinco anos dormia sozinha naquele cômodo minúsculo e cheio de goteiras. Quente feito o inferno, no verão e, no inverno, gelado. Desde que a mãe surpreendera Rildo a observando enquanto dormia e se masturbando. “Aquele porco!” Foi a primeira vez que a Velha Sádica saiu de sua letargia e tomara o seu partido. O menino ficou andando com dificuldades durante uns três dias, resultado da tunda de cabo de vassoura. O Velho Ordinário admoestou o filho, rindo:
_ Qualquer uma. Mas sua irmã, não!
Mas surrou-a para que ela “tomasse modos de moça e não provocasse os rapazes!” Cinco anos! O que ela poderia saber?
Só poderia ser isto que não se encaixava: a ausência do medo.  Não bastante ao nojo que nutria pela família, não havia mais medo. “Que sensação maravilhosa é não sentir nenhum medo. Não se sobressaltar e tremer a cada barulho vindo do interior da toca.” Já que os barulhos do exterior jamais a preocuparam ou assustaram! “Eu poderia entrar no quarto de qualquer um deles e gritar: eu não tenho mais medo de vocês, ouviram? A nenhum de vocês. Nem ao Velho Ordinário, nem ao Porco do Rildo e nem ao Gílson, esta víbora mesquinha!” mas a hora ainda não chegara. Era muito cedo.
Era cedo para acordá-los com seu desabafo tardio e inoportuno, mas para matá-los, era precisamente o momento.
Na manhã seguinte, já longe dali, da família, apenas as manchetes do jornal. 




Texto de Francisco Ferreira, Divulgado aqui em razão do concurso. Visite o blog de Francisco Ferreira

sábado, 24 de dezembro de 2011

Wink - Mia Sodré




Como foi descoberto? - Quando conheci o blog da Mia Sodré, foi por meio do twitter da Juliane Bastos , onde ela falava de um texto incrível, me bateu a curiosidade e fui ver o tal texto, e de cara notei a simplicidade e os sentimentos impregnados no texto e o que mais impressiona é a criatividade.

Sobre o blog:  Como já falei, fiquei impressionado com a simplicidade, a criatividade e os sentimentos nos textos, o Wink é um blog super leve, com todos os textos muito bem organizados, de fácil acesso a tudo no blog, não é difícil achar informações sobre a autora, e sobre o blog.

Sobre a autora: Mia Sodré e de Viamão-RS região metropolitana de Porto Alegre, 17 anos, aquariana, se diz excêntrica até demais, apaixonada por retrô e vintage, anos 50, 60 e 70. Mia diz que nasceu na década errada e no país errado também, já que tem descendência de  família inglesa, alemã, polonesa e judia, e segundo ela não tem nada de brasileira. Escritora nas horas vagas, é odiada por alguns e admirada por quase todos e sem a mínima modéstia, essa é Mia Sodré.












terça-feira, 22 de novembro de 2011

Blog: Ins*pirações


Ins*pirações é aquele blog, que você procurava, com textos bem elaborados e insPirados,  seu bom humor e sua forma de escrever bastante contagiante, faz você se trancar na frente do computador e ler o blog inteiro, embora seja um blog novo, traz consigo bastante conteúdo.

Concerteza você vai gostar do blog.
Aqui fica o endereço para o blog, e para o RSS do mesmo.


Blog: Entre as Nuvens








  
O blog entre as nuvens é um blog escrito por Mari Sayuri, é mais um blog literário que entra para galeria do Olinkador, e trás consigo histórias, poemas, um pouquinho da cultura oriental e como Mari mesmo citou os desvaneios de MAL/AMADA.

"Um dia as nuvens nos levarão para outro lugar".
Gosta de leitura cotidiana e ficção?
Então está aqui um prato cheio.


Algumas redes sociais do blog:

 










sábado, 5 de novembro de 2011

O que um coração sente






Blogs existem muitos, porém é difícil encontrar um blogs com conteúdos exclusivos, talvez seja esse o verdadeiro diferencial do blog de Juliane Bastos, com conteúdo exclusivo, ótimos textos e muita participação, talvez hoje, possa ser considerado um dos melhores blogs literários encontrados na internet.


Geralmente seus posts saem a cada 3 dias, são textos românticos, sobre amizade, alguns poemas, que por sinal, são muito bons. Sobre a blogueira, como ela mesmo diz, é apaixonada por fotografias, por escrever, ler e por viajar. Inclusive tem o sonho de conhecer o Rio Grande do sul de " cabo a rabo", você pode acompanhar clicando aqui


Visite já o blog.





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